quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Indio Caiová Ator de filme é morto esfaqueado

                        Líder dos índios guarani-caiová de MS Ambrosio Vilhalva na divulgação do filme "Terra Vermelha", em 2008
Um líder dos índios guarani-caiová de Mato Grosso do Sul, ator de filme sobre a causa indígena, foi morto esfaqueado em sua casa, no território chamado Guyraroká, em Caarapó (a 277 km de Campo Grande).
Ambrósio Vilhalva, 53, ganhou projeção internacional em 2008, quando foi protagonista do filme "Birdwatchers" (ou "Terra Vermelha"), que narrou a retomada de terras dos ancestrais dos guaranis. O filme, uma produção ítalo-brasileira, foi destaque na mostra de Veneza daquele ano.
O homicídio ocorreu na madrugada da última segunda-feira (2). A Polícia Civil suspeita que o crime tenha sido motivado por brigas internas na aldeia, impulsionadas pelo consumo elevado de álcool entre os índios.
A polícia prendeu em flagrante o sogro de Vilhalva, Ricardo Quevedo, apontado como autor do homicídio --Quevedo nega.
Segundo o delegado Antônio Carlos Videira, chefe da delegacia regional de Dourados (MS), o líder guarani tinha três mulheres, sendo duas delas mãe e filha. Ambas, diz o delegado, afirmaram que viram Quevedo --respectivamente pai e avô delas-- entrando na casa de Vilhalva naquela madrugada e depois saindo correndo.
Ainda conforme o delegado, momentos antes do crime, os dois consumiam álcool com outros índios em Guyraroká. Ele disse ainda que há boatos de que a vítima provocava vários conflitos na aldeia e tinha inimigos.
 REPERCUSSÃO
A morte do líder guarani provocou manifestações de ONGs ligadas ao movimento pela retomada de terras indígenas, como o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), braço da Igreja Católica no Brasil para temas indígenas.
Na opinião do cientista político Egon Heck, assessor do Cimi, a despeito de eventuais motivações pessoais para o crime, o homicídio de Vilhalva não é um caso isolado. Relaciona-se, afirma Heck, ao ambiente tenso provocado pelo "confinamento dos índios" a pequenos espaços.
Ao "aperto" de grupos indígenas em poucos hectares somam-se problemas como alcoolismo, subnutrição e altas taxas de suicídio, diz Heck.
"O desfecho dessa morte é uma consequência de elementos regionais. Fazemos um apelo para que os governos resolvam as conjunturas de fundo desse problema", disse o assessor. Ele refere-se à necessidade de expulsar os cultivos de cana e soja e a criação de gado das áreas indígenas.
HISTÓRICO
Há 45 mil guaranis-caiovás nas diversas aldeias de Mato Grosso do Sul, segundo o Cimi. Só os do território Guyraroká, de Vilhalva, são entre 80 a 100 pessoas.
Ao longo do século 20, os guaranis do Guyraroká viveram restritos em uma reserva indígena, misturados a outras etnias. Mas em 1990 eles decidiram sair da reserva e se instalar em uma área já habitada por seus ancestrais. O trecho ocupado, em parte de uma fazenda, tinha 60 hectares (algo como 78 campos de futebol de 7.700 m²).
Eles chegaram a ser expulsos e permaneceram por quatro anos na beira de uma estrada, retornando à área. Mas em 2009, ainda segundo o Cimi, o Ministério da Justiça reconheceu como território dos guaranis do Guyraroká uma área de 12 mil hectares --o equivalente a 76 parques como o Ibirapuera, em São Paulo, que tem 1,6 milhão de m².
Atualmente, conforme Heck, os índios do Guyraroká vivem em condições precárias. Dependem de cesta básica, já que o plantio de feijão, batata e outros alimentos não é suficiente. Há problemas de alcoolismo e suicídio.
No ano passado, outra comunidade de índios guarani-caiová de Mato Grosso do Sul ganhou projeção nacional, com apoio nas redes sociais. Depois de a Justiça determinar sua retirada de uma área, a comunidade de uma aldeia da cidade de Iguatem

FOLHA DE SÃO PAULO

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