quarta-feira, 24 de julho de 2013

Mãe é presa após lutar para punir estupradores da filha na China

           Tang Hui, 40, tornou-se um símbolo de persistência na China ao ganhar na Justiça uma indenização por ter sido enviada a campo de trabalho forçado
Tang Hui, 40, tornou-se um símbolo nacional de persistência na semana passada, aoganhar na Justiça uma indenização por ter sido enviada a um "laojiao", como são conhecidos os odiados campos de "reeducação pelo trabalho" da China.
Sua campanha contra os homens que raptaram, estupraram e prostituíram sua filha de 11 anos comoveu o país e aumentou a pressão para o fim dos campos de reeducação.
*
No primeiro dia de outubro de 2006, minha filha saiu para andar de patins à tarde e não voltou para jantar. Quando a encontrei na rua, no dia seguinte, estava ansiosa para saber o que houve. Perguntei, mas ela só chorava.
Dois dias depois, ela sumiu de novo, desta vez por três meses. Só mais tarde descobri o que havia acontecido na primeira vez. Ela andava de patins quando um rapaz se aproximou e a convenceu a ir a um karaokê, dizendo que haveria outras crianças. Chegando lá, levou-a para um quarto e a estuprou.
Dois dias depois, quando minha filha passou pelo salão, o rapaz ameaçou matar a nossa família se ela não fosse com ele. Ela ficou com tanto medo que o seguiu.
Procurei por toda parte, dia e noite. Um dia recebi um telefonema e soube que havia uma menina com a descrição da minha filha numa casa de entretenimento.


continui lendo a história

Mesmo sem o apoio da minha família, decidi vigiar de um prédio em frente à casa. Fiquei lá uma semana, disfarçada de coletora de lixo. Depois de dois dias, vi uma menina que parecia com a minha filha. Pedi a dois rapazes que checassem e eles confirmaram: era ela.
Quando chegamos em casa, minha filha contou sobre os terríveis maus-tratos que havia sofrido. Ela foi espancada, violentada e humilhada. Decidi lutar por justiça.
A polícia tentou me convencer a não apresentar a queixa, dizendo que era um caso de segurança pública. Fiquei indignada. Ameacei deitar na delegacia e fazer um escândalo. Eles acabaram registrando a ocorrência.
Mas os criminosos ficaram livres e o prostíbulo continuou aberto. Só os prenderam 20 dias depois, mas a essa altura eles já tinham destruído muitas provas, incluindo o diário que minha filha escreveu no cativeiro.
Decidiram julgar o caso na corte distrital, mas eu sabia que um caso como esse, que pode levar à pena de morte ou à prisão perpétua, deve ser julgado em cortes intermediárias ou na corte municipal. Apresentei uma petição [sistema milenar chinês em que cidadãos apresentam queixas ao governo central].
Fui a autoridades superiores. Peticionei na Procuradoria da minha cidade, Yongzhou [sul], mas fui enxotada. Neguei-me a ir embora, passei dois dias em greve de fome. Concordaram com o julgamento na corte municipal.
Todo o processo durou cinco meses e o veredicto final foi pena de morte para dois deles, prisão perpétua para quatro e 15 anos para outro. Não fiquei satisfeita, porque nem todos os que estupraram minha filha foram punidos, e a decisão não foi emitida por escrito.
Decidi peticionar em frente à Corte Suprema de Hunan. O oficial de justiça me bateu e fiquei nove dias no hospital. Gastei mais de 6.000 yuans (R$ 2.200). Senti-me injustiçada. A corte devia ser o lugar onde as pessoas clamam por justiça. Não esqueço como chovia forte no dia em que me jogaram na rua. Tremia de frio, dor e ódio.
Fui sentenciada a 18 meses num campo de reeducação pelo trabalho, sob a acusação de perturbar seriamente a ordem pública. Fiquei detida nove dias. Com a comoção popular, me libertaram.
No campo de reeducação, tinha que acordar às 6h e fazer exercícios matinais. Depois, os prisioneiros iam trabalhar em atividades manuais simples. Para recém-chegados como eu, havia aulas sobre as regras do campo e era recitado o Di Zi Gui [normas de conduta e disciplina baseadas em Confúcio].
Ganhei o recurso contra o campo, mas não recebi pedido de desculpas por escrito e disseram que meu comportamento foi contra a lei.
Nós, pessoas comuns, não somos baderneiros. Se nos dessem alguma esperança, não precisaríamos protestar. Só quero uma vida tranquila.
Hoje minha filha vive com um parente. A situação dela não é boa. Sente-se ansiosa e insegura. Até que vai bem na escola. Sua matéria predileta é chinês. O sonho dela é ser empresária e ganhar uma fortuna, para que ninguém possa mais nos incomodar.

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